A ideia de meritocracia ocupa um lugar privilegiado no debate educacional brasileiro, e tende a gerar discussões ainda mais fortes em ano eleitoral. Ela é sedutora porque é simples: se todos têm acesso à escola, os melhores resultados seriam consequência direta do esforço individual. O sucesso, nesse raciocínio, seria merecido; o fracasso, responsabilidade do próprio aluno. Trata-se de uma narrativa confortável, especialmente para gestores públicos, mas que encontra sérios limites quando confrontada com evidências empíricas. Mas então, a meritocracia na educação é mito ou injustiça?

Pesquisas nacionais e internacionais têm mostrado de forma consistente que o desempenho educacional está fortemente associado a fatores socioeconômicos, familiares e institucionais. Renda, escolaridade dos pais, acesso a bens culturais, condições de moradia e qualidade da escola frequentada explicam uma parcela significativa das diferenças de desempenho entre estudantes. Esse tem sido, inclusive, tema de diversas que eu, pessoalmente, tenho interesse, sempre focando em dados e modelos econométricos, que nos ajudam a separar o que é crença individual do que é a realidade. E as evidências são claras: o esforço individual importa, mas ele opera dentro de um campo de possibilidades profundamente desigual.
E quando as políticas não funcionam?
Quando políticas educacionais são desenhadas sob uma lógica estritamente meritocrática, elas tendem a ignorar esse ponto de partida desigual. Avaliações padronizadas, rankings e sistemas de premiação por desempenho frequentemente recompensam escolas e alunos que já dispõem de melhores condições estruturais, enquanto penalizam aqueles que enfrentam contextos adversos. O resultado não é a correção das desigualdades, mas sua legitimação sob o discurso do mérito.
Do ponto de vista empírico, esse modelo produz efeitos conhecidos. Escolas situadas em territórios mais vulneráveis tendem a apresentar piores resultados médios, não por deficiência pedagógica intrínseca, mas por lidarem com desafios adicionais: rotatividade docente, menor infraestrutura, maior evasão e estudantes que conciliam estudo e trabalho. Tratar esses resultados como simples falha de esforço equivale a confundir diagnóstico com julgamento moral.
Além disso, a meritocracia educacional frequentemente se apoia em indicadores agregados que ocultam desigualdades internas. Melhorias nas médias podem coexistir com o aprofundamento das disparidades entre grupos sociais. Quando a política pública se orienta exclusivamente por metas numéricas, corre-se o risco de otimizar indicadores sem, de fato, melhorar as condições de aprendizagem dos mais vulneráveis.
Mas então, o esforço não tem valor?
Isso não significa rejeitar a ideia de mérito ou desvalorizar o esforço individual. Significa, antes, reconhecer que mérito não se desenvolve no vácuo. Políticas educacionais eficazes são aquelas que combinam avaliação com equidade, responsabilização com suporte, e metas com investimento direcionado. Esse é o papel de políticas afirmativas como a política de cotas, por exemplo. A pergunta central não deveria ser quem teve melhor desempenho, mas sob quais condições esse desempenho foi produzido. E se as condições foram sabidamente piores, realizar alguma forma de compensação, enquanto sociedade.
Em última instância, a meritocracia, quando aplicada de forma acrítica à educação, funciona mais como um discurso legitimador do status quo do que como um instrumento de justiça social. Questioná-la não é negar a importância do esforço, mas recusar a ideia de que desigualdades estruturais possam ser resolvidas apenas pela vontade individual. As evidências empíricas são claras: sem políticas que enfrentem as condições de origem, a meritocracia deixa de ser um ideal de justiça e se transforma em uma política injusta.
R. J. Dabliu é economista, professor universitário, compositor e palestrante. É autor dos livros “Mill Sentidos da Vida”, “O conto da raposa vermelha” e apresentador na série de vídeos para o YouTube, “EU NÃO LI SHAKESPEARE”.
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