Antes do sol nascer, quando a praia ainda está vazia e o mar fala mais alto que qualquer barulho da cidade de Matinhos, o surfista Aminandes Pamplona Neto, de 29 anos, já está acordado com o pensamento todo no mar. Para ele, o surf nunca foi apenas um esporte, foi caminho, refúgio e disciplina. “Eu durmo pensando em surf e acordo pensando em surf”, resume.

foto do surfista no mar em Matinhos
Desde cedo, o surf deixou de ser apenas um esporte e virou caminho (Foto: Sanderson Trevisan/Arquivo Pessoal)

Essa relação intensa com o oceano começou cedo e ajudou a definir cada passo de uma vida construída entre pranchas, campeonatos, recomeços e fé.

Nascido em Curitiba, no bairro Santa Felicidade, o jovem chegou a Matinhos ainda pequeno, com apenas cinco anos de idade. Foi ali, no litoral, que ele construiu suas memórias mais profundas e formou suas raízes.

O surf entrou em sua vida quando tinha entre oito e nove anos, e entrou para ficar. Até então, o futebol era o esporte principal. Aminandes chegou a fazer parte da base de uma escolinha ligada ao Paraná Clube. Mas algo mudou quando conheceu mais de perto a história de dois primos surfistas. “Ali virou a chave”, resume.

Quando o surf virou oportunidade

O primeiro contato mais estruturado com o esporte veio por meio de um projeto social: o Surf na Escola. A iniciativa oferecia aulas de surf para alunos com bom desempenho escolar. Aminandes foi selecionado e apadrinhado.

Foi nesse projeto que o surf deixou de ser apenas curiosidade e virou caminho. Logo no primeiro ano competindo, veio um resultado que selaria o destino: vice-campeão paranaense na categoria de base, ainda criança. A paixão nasceu junto com a certeza de que não queria parar.

A trajetória não foi fácil. Durante boa parte da infância, Aminandes morou apenas com o pai, que trabalhava como pescador e vendia frutos do mar em Curitiba, abastecendo restaurantes da capital. Era ele quem acordava cedo, trabalhava duro e, sempre que possível, levava o filho para as competições.

Porém, um casal de surfistas de Matinhos acolheu o jovem atleta quando ele ainda era o mais novo da equipe. Foram eles que bancaram inscrições e apoio nos primeiros anos como competidor.

“Se não fosse por eles, com certeza eu não estaria onde estou hoje”.

Títulos, viagens e um sonho construído onda por onda

O talento, somado à dedicação, trouxe resultados. Aminandes começou a competir não só no Paraná, mas também em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, representando o estado paranaense no cenário nacional.

surfista de matinhos vencedor campeonato paranaense
(Foto: Arquivo Pessoal)

Aminandes é dez vezes campeão paranaense de surf amador, campeão catarinense e vice-campeão gaúcho. Ele possui uma coleção de centenas de troféus espalhados pela casa, cada um carregando uma história.

“Eu tenho muito orgulho disso, pelo fato de que não foi nada fácil, foi uma caminhada bem longa e trabalhada. Eu só tenho a agradecer a Deus pela minha vida e por todas as oportunidades”, relata

O acidente que mudou tudo e quase tirou o surf da sua vida

Há cerca de sete anos, veio o episódio mais duro da trajetória. Durante uma etapa do circuito paranaense, na Ilha do Mel, Aminandes liderava o ranking quando tentou uma manobra aérea que acabou dando errado. O tornozelo quebrou. Tíbia e fíbula fraturadas. Por pouco, não houve fratura exposta.

O laudo médico foi devastador: segundo o documento, ele só poderia voltar a surfar após um ano e meio e nunca mais em alto rendimento.

Três dias depois, o contrato com o principal patrocinador venceria. Com o laudo em mãos, a empresa optou por não renovar e de uma hora para outra, Aminandes perdeu o patrocínio, o salário e a estabilidade. “Foi um divisor de águas na minha vida”, conta emocionado.

Recuperação e recomeço

Contra todas as previsões, Aminandes decidiu não aceitar o diagnóstico como sentença. Passou a fazer até três sessões de fisioterapia por dia. Teve apoio fundamental de uma amiga e mergulhou em um processo intenso de recuperação física e mental.

Em três meses e meio, ele voltou ao alto rendimento. Mais do que recuperar o corpo, aquele período desacelerou a mente e trouxe reflexão e fé.

“Eu tinha um estilo de vida muito acelerado, treinava bastante, era muito ativo e isso fez eu parar e pensar. Eu vi que eu posso tudo, basta eu querer”.

Rotina guiada pelas ondas

Diante de toda a trajetória, Aminandes criou uma escola de surf no Pico de Matinhos com aulas que vão além do ensino. Na APN Aulas de Surf, o esporte é para todos, segundo o surfista. Crianças a partir dos cinco anos já podem participar, assim como adolescentes, adultos e idosos. Não há restrição de idade, gênero ou experiência. O único requisito é a vontade de aprender.

aulas de surf em matinhos
(Foto: Arquivo Pessoal)

Em média, as aulas duram entre uma hora e dez minutos a uma hora e vinte, mas isso pode variar de acordo com o ritmo e a necessidade do aluno.

Toda a metodologia foi desenvolvida com foco no aprendizado seguro, especialmente para iniciantes e crianças. Antes de entrar no mar, o aluno passa por uma preparação completa na areia, aprendendo postura, equilíbrio e movimentos básicos. Só quando o instrutor percebe que ele está realmente pronto é que a aula segue para a água.

“Todo mundo que chega aqui fica de pé na primeira aula”, garante Aminandes. “Esse é um dos grandes diferenciais da escola”.

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Mahara Gaio

Repórter

Jornalista formada pela Universidade Positivo e pós-graduada em Jornalismo Digital. Produz pautas com foco em Clima e Tempo, além de Segurança, com ênfase em crimes e acidentes de repercussão no Paraná.

Jornalista formada pela Universidade Positivo e pós-graduada em Jornalismo Digital. Produz pautas com foco em Clima e Tempo, além de Segurança, com ênfase em crimes e acidentes de repercussão no Paraná.