Curitiba - A proposta de tornar Curitiba a Capital do Sul do Forró tem causado polêmica nas redes sociais. Para alguns, a ideia soou tão inusitada quanto imaginar ritmos nordestinos em cenários improváveis — parafraseando o eterno Luiz Gonzaga – quase como se alguém sonhasse estar em Moscou dançando forró em uma boate russa.

Mas, para a vereadora Vanda de Assis (PT), o título é algo natural. Nascida no Ceará, a parlamentar apresentou um projeto de lei que busca fortalecer o forró como expressão artística que, segundo ela, já está consolidada no município. Em contrapartida, o movimento O Sul é Meu País se posicionou contra a proposta por meio das redes sociais.
Curitiba como Capital Sul do Forró gerou polêmica nas redes sociais
Em um vídeo publicado no Instagram, o movimento separatista O Sul é Meu País afirmou que a vereadora Vanda de Assis deseja impor a cultura nordestina a Curitiba. Segundo o grupo, não se trata de xenofobia ou discriminação, mas de um desrespeito não apenas aos curitibanos, como também aos próprios nordestinos. O movimento afirma ainda que Curitiba não possui qualquer tipo de relação histórica ou cultural com o forró.
Procurada pela reportagem, Vanda afirmou que o projeto não cria uma cena de forró, mas reconhece uma cena que já está consolidada na capital paraense. Segundo ela, não se trata de um projeto de incentivo, e sim de valorização e reconhecimento cultural.
“Importante frisar que o projeto fala de Curitiba como capital do forró no Sul do Brasil — e isso foi construído a partir de escuta com produtores culturais, artistas e pessoas que movimentam essa cena há anos. Entre Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, Curitiba é, sim, o principal polo de forró da região (…) Quem frequenta os espaços culturais da cidade sabe que aqui tem forró toda noite, em diferentes casas e bairros”, disse a parlamentar.
Questionada sobre as críticas ao projeto, a vereadora afirmou que a maior parte delas decorre da desinformação.
“Também é importante dizer: infelizmente, parte das críticas que vimos nas redes tem um tom de desinformação e até de preconceito contra a cultura nordestina. Há falas que desqualificam o forró como se ele fosse ‘menor’ ou ‘não pertencesse’ à cidade — e isso é inaceitável”, afirmou.
A reportagem procurou o movimento separatista O Sul é Meu País, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.
Conheça o movimento O Sul é Meu País que deseja separar região do Brasil
O Sul é Meu País é um movimento separatista fundado em 1992 que defende a independência dos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O grupo fundamenta sua proposta em argumentos como a existência de uma identidade cultural própria, diferenças econômicas em relação a outras regiões do país e descontentamento com o governo federal. Segundo lideranças e a carta de princípios do movimento, as motivações para a separação incluem fatores econômicos e tributários, como a alegação de uma carga tributária elevada e um suposto potencial de autossuficiência da região, além de questões políticas, como críticas à corrupção e àquilo que o grupo classifica como sub-representação do Sul na política nacional. O movimento afirma defender a separação por meios pacíficos e democráticos.
Apesar dessas reivindicações, o separatismo é considerado inconstitucional no Brasil. O artigo 1º da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 define o país como uma República formada pela “união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal”, o que torna juridicamente inviável qualquer iniciativa de separação territorial.
Perfil migratório revela diversidade crescente em Curitiba
Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que Curitiba não é o principal destino de migrantes nordestinos, mas evidenciam uma capital cada vez mais diversa. Entre os migrantes que vivem há dez anos ou menos na cidade, 91.449 pessoas (36,20%) vieram de outras cidades do Paraná, 36.836 (14,58%) de São Paulo, 23.044 (9,12%) de Santa Catarina e 22.337 (8,84%) de outros países. Em relação ao estado de origem da população residente, 80,59% são paranaenses, enquanto 5,52% vieram de São Paulo, 4,16% de Santa Catarina e 2,13% do Rio Grande do Sul, com os demais oriundos de outras unidades da Federação.
Apenas nos últimos cinco anos, Curitiba recebeu 16.614 migrantes paulistas, 10.365 catarinenses e 3.953 gaúchos, consolidando-se como a capital brasileira que mais atrai habitantes de São Paulo, à frente de cidades como Rio de Janeiro e Florianópolis. Quanto ao tempo de residência, 24,6% dos migrantes estão há um ano ou menos na cidade, 26,76% entre dois e três anos, 20,94% entre quatro e cinco anos e 27,70% entre seis e nove anos
Ainda segundo o IBGE, Curitiba é a 5ª capital com maior número de estrangeiros e a 3ª em número de naturalizados brasileiros.
“Curitiba é uma cidade formada por múltiplas culturas, inclusive por muitos nordestinos que contribuíram e contribuem para a nossa identidade. Reconhecer o forró é reconhecer essas pessoas, suas histórias e sua presença na cidade. Esse é o espírito do projeto”, declarou a veradora Vanda.
Forró é reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil
Reconhecido por seu valor cultural e relevância histórica, o forró foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil em 2021 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O gênero também passou a ser oficialmente reconhecido como manifestação da cultura nacional após a sanção de um projeto de lei, aprovado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado, e sancionado em 2023 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
De acordo com o texto da lei, o forró é um dos gêneros musicais mais autênticos do país, surgido há cerca de sete décadas a partir da fusão de ritmos tradicionais do Nordeste, como baião, xaxado, coco, arrasta-pé e xote.
Como um projeto da Câmara Municipal vira Lei em Curitiba?
O projeto de lei apresentado pela vereadora Vanda de Assis foi protocolado em 3 de outubro e, atualmente, aguarda um novo parecer da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). A proposta retornou ao gabinete da parlamentar para ajustes antes de seguir novamente para análise.
De forma geral, um projeto de lei pode ser apresentado por vereadores, pelo prefeito ou por iniciativa popular. Após o protocolo, o texto passa por estudos técnicos da Procuradoria Jurídica e pelo controle de legalidade da Comissão de Constituição e Justiça. Em seguida, a proposta é encaminhada às comissões temáticas, que avaliam o conteúdo e emitem pareceres. Somente depois dessas etapas o projeto é levado à votação em plenário. Caso seja aprovado, segue para sanção do Executivo e, após a publicação no Diário Oficial, passa a ter força de lei.
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