Curitiba - O caso do jovem desaparecido no Pico do Paraná ganhou novos contornos nas redes sociais. Thayane Smith, que subiu a montanha na companhia de Roberto Farias, (que foi encontrado vivo hoje, dia 5 de janeiro, em Antonina )passou a ser alvo de um linchamento moral no ambiente digital. A indignação por sua postura ao não socorrer o amigo que passava mal e por suas declarações infelizes começa a dar lugar ao justiçamento popular. As manifestações raivosas e o volume de informações não confirmadas já flertam com crimes de ódio, como a xenofobia, um comportamento que, infelizmente, se repete na era da pós-verdade.

A defesa da jovem, conduzida pela advogada criminalista Kellen Larissa, afirmou que está tomando providências legais para identificar perfis que estejam ultrapassando a linha da indignação e partindo para ações criminosas de calúnia, difamação e racismo. “Perfis falsos vêm sendo criados nas redes sociais com o objetivo de disseminar informações inverídicas. Diante disso, esclarece-se que qualquer manifestação oficial relacionada a Thayane ocorre exclusivamente por meio de seus familiares e de sua advogada”, afirmou a criminalista em nota enviada à imprensa.
Em conversa com a coluna Arquivo Aberto, Kellen disse que foi acionada a pedido da família da jovem, que mora em Manaus. A advogada reforçou que Thayane vem sendo execrada injustamente, “impulsionada por uma mídia sensacionalista”. Na tarde de domingo, dia 4 de janeiro, um perfil falso que difama Thayane desde o mês de abril, segundo apuração, publicou um conteúdo sensível e não confirmado como verdadeiro, provocando ainda mais revolta entre pessoas que acompanham o caso.
A advogada destacou que o perfil já foi denunciado às autoridades e que a defesa buscará a responsabilização do autor pela divulgação de notícias falsas. Existe, inclusive, segundo ela, um procedimento investigativo aberto para apurar a autoria e as responsabilidades.
Linha tênue entre indignação e ódio
O delegado da Polícia Civil de Campina Grande do Sul, Gilson de Lima, responsável pela investigação do desaparecimento de Roberto, já se posicionou afirmando que o caso é tratado, até o momento, como desaparecimento, sem indícios de crime. Portanto, Thayane não é tratada como suspeita de nada.
É fato público e notório que, com base nas próprias declarações da jovem, suas atitudes e escolhas foram, no mínimo, irresponsáveis e egoístas. Suas falas comprometeram ainda mais sua imagem diante da opinião pública. A indignação e até o repúdio à sua postura e às decisões tomadas são compreensíveis e esperados. Qualquer pessoa com o mínimo de empatia se choca com a forma como ela lidou com os fatos.
No entanto, a indignação não pode ultrapassar os limites do razoável e do aceitável. Ondas de comentários xenofóbicos e misóginos inundam as redes, direcionados a Thayane. Das tatuagens à sua origem, tudo vira motivo para ataques. Milhares de comentários, feitos por pessoas reais ou perfis falsos, propagam teorias fantasiosas com o objetivo de agredi-la, até o momento, moral e psicologicamente.
Essa onda de justiçamento cria um precedente real para que essa mulher se torne alvo de agressões físicas ou algo ainda mais grave. No Brasil, isso não é incomum. Pelo contrário. O sinal de alerta está ligado.
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Justiça e justiçamento são coisas completamente diferentes. Se houver, na avaliação da Justiça, alguma responsabilidade de Thayane no desaparecimento de Roberto, ela será responsabilizada. Cabe à autoridade policial investigar e ao Ministério Público e ao Judiciário, em eventual ação, tratar o caso nos termos da lei. Todo o resto é disseminação de ódio.
Família de Roberto dá exemplo de civilidade
Apesar do espetáculo de ódio e preconceito visto nas redes sociais, a família de Roberto, assim como seu advogado, Leonardo Mestre, deram exemplo de civilidade e maturidade ao lidar com a situação. Com Roberto desaparecido por cinco dias, até ser encontrado, mesmo diante de decisões e falas infelizes de Thayane, familiares e advogado não fizeram declarações para atacá-la ou desmoralizá-la. Pelo contrário, mantiveram o foco nas buscas e no objetivo de encontrar Roberto.
Não existiu espaço para ódio entre amigos e familiares, e isso está claro. Em meio à dor de não ter notícias do jovem por dias em que esteve perdido em uma das áreas de mata mais inóspitas do Paraná e do Brasil, eles, os familiares, escolheram trabalhar pela vida de Roberto. Escolheram manter a mobilização em favor do resgate, não a destruição de Thayane. Poderiam ter adotado um discurso indignado e revoltado, mas jamais o fizeram. Optaram pela civilidade, não pela selvageria.
Buscas por Roberto encerradas
As buscas por Roberto foram encerradas na manhã deste dia 5 de janeiro. Ele foi encontrado na região de Antonina, no litoral do Paraná.
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